Quem me conhece sabe que estou preso injustamente. Vou contar-lhe a minha história...
Era noite do 5 de abril de 1832 em Paris, início da minha vigésima primavera. O ar era gelado e a lua reinava bela, mas eu não podia evitar um sentimento de inquietação que crescia dentro de mim. Era noite, era Paris e Desirée estava trancafiada sozinha em seus aposentos: louco seria se não fosse atrás dela.
Eis, então, que apertei meu passo, outrora lento e perdido por uma pequena
rue, em direção à casa dela. Uma caminhada moderada e pronto, estava a vislumbrar sua janela. Luz era emanada por entre as cortinas alvas e este era o meu sinal. Enfim, após dois anos e meio, poderia vê-la, tocá-la, beijá-la.
Pendurei-me na trepadeira que revestia o muro e pus-me a escalá-la. Era uma árdua investida, mas valia cada hematoma. E, após alguns minutos, recebia meu prêmio, abrindo a janela que me separava daquele outro mundo.
Logo meti-me entre suas colchas que tinham seu cheiro enquanto admirava sua belíssima face. Ela estava estática, mirando-me pelo espelho de sua penteadeira de cor marfim como se eu fosse um fantasma. Embora permanecesse sentada, não movimentava mais a mão que escovava seus cabelos. Era uma estátua divina. Levantei-me, então, de sua cama e iniciei um passeio pelo quarto, meu velho conhecido. E foi aí que ela proferiu o que seu olhar já dizia. Estava atônita, queria saber o que eu fazia ali. Mas eram apenas frases para preencher o silêncio, ela já sabia a resposta. Palavras eram pleonasmo, então passamos à ação.
Tinha passado-se um quarto de hora e ainda suspirávamos. Ela, em meus braços, beijava-me com seus doces lábios. E foi nesse ponto que o pai fez sua entrada abrupta no cômodo. Havia ouvido-nos. Com o demônio nos olhos, ele tentava arrancá-la de mim novamente. Minha amada desdobrava-se em lágrimas, tentando abraçar-me, enquanto eu lutava com o outro. Mas era inevitável. Era outro adeus.
Mas tudo foi diferente depois daquela vez. Nada de alienistas reclusos ou universidades do outro lado do mundo. Cansara de perdoar-me. O homem que chamava de nosso pai deserdou-me e mandou-me para cá. Estou cativo por amar Desirée. E agora diga-me, então: qual a justiça em ser preso por amar?