quarta-feira, 30 de julho de 2008

Desejo


Quem me conhece sabe que estou preso injustamente. Vou contar-lhe a minha história...

Era noite do 5 de abril de 1832 em Paris, início da minha vigésima primavera. O ar era gelado e a lua reinava bela, mas eu não podia evitar um sentimento de inquietação que crescia dentro de mim. Era noite, era Paris e Desirée estava trancafiada sozinha em seus aposentos: louco seria se não fosse atrás dela.

Eis, então, que apertei meu passo, outrora lento e perdido por uma pequena rue, em direção à casa dela. Uma caminhada moderada e pronto, estava a vislumbrar sua janela. Luz era emanada por entre as cortinas alvas e este era o meu sinal. Enfim, após dois anos e meio, poderia vê-la, tocá-la, beijá-la.

Pendurei-me na trepadeira que revestia o muro e pus-me a escalá-la. Era uma árdua investida, mas valia cada hematoma. E, após alguns minutos, recebia meu prêmio, abrindo a janela que me separava daquele outro mundo.

Logo meti-me entre suas colchas que tinham seu cheiro enquanto admirava sua belíssima face. Ela estava estática, mirando-me pelo espelho de sua penteadeira de cor marfim como se eu fosse um fantasma. Embora permanecesse sentada, não movimentava mais a mão que escovava seus cabelos. Era uma estátua divina. Levantei-me, então, de sua cama e iniciei um passeio pelo quarto, meu velho conhecido. E foi aí que ela proferiu o que seu olhar já dizia. Estava atônita, queria saber o que eu fazia ali. Mas eram apenas frases para preencher o silêncio, ela já sabia a resposta. Palavras eram pleonasmo, então passamos à ação.

Tinha passado-se um quarto de hora e ainda suspirávamos. Ela, em meus braços, beijava-me com seus doces lábios. E foi nesse ponto que o pai fez sua entrada abrupta no cômodo. Havia ouvido-nos. Com o demônio nos olhos, ele tentava arrancá-la de mim novamente. Minha amada desdobrava-se em lágrimas, tentando abraçar-me, enquanto eu lutava com o outro. Mas era inevitável. Era outro adeus.

Mas tudo foi diferente depois daquela vez. Nada de alienistas reclusos ou universidades do outro lado do mundo. Cansara de perdoar-me. O homem que chamava de nosso pai deserdou-me e mandou-me para cá. Estou cativo por amar Desirée. E agora diga-me, então: qual a justiça em ser preso por amar?

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Tempos contemporâneos


Vestiu-se minimamente de seda e renda como se vergonha fosse tê-la. Estava afoita, sedenta de amor e acalentos, e a noite era aquela. Bastava de perfumes e espelhos, era hora de sair do banheiro e ir para o quarto da suíte - era hora de sentir-se mulher.

Abriu a porta lentamente, revelando, de forma sutil mas provocadora, suas curvas, que naquele momento encontravam-se favorecidas pelos minúsculos panos que logo enfeitariam o chão. Caminhou a passos longos mas vagarosos até a cama com seu olhar mais insinuante. Delicadamente deslizou a mão pelos lençóis brancos de algodão egípcio enquanto exalava sensualidade a cada leve e penetrante suspiro. Ela estava pronta.

Sentou-se na ponta da cama e inclinou-se na sua direção. Começou a tirar lentamente as roupas dele; cada toque em sua pele suave fazia as extremidades dela estremecerem. Beijou-o passionalmente e guiou as mãos dele para que a desnudasse. Ela mal podia esperar para deslizar aqueles mesmos lábios de ponta a ponta naquele corpo quente contra o qual ela roçava-se.

Mas ele não fez coisa alguma. Não beijou-a de volta nem moveu-se para despir o pouco que ela vestia. Apenas, momentos depois, tirou-a de seu topo. Levantou-se e passou as mãos pelo seu rosto e cabelo negro. Deu dois passos para cada lado do quarto, olhando para seus pés, enquanto era mirado pela mulher, perplexa:

― Não sei mais o que fazer para trazer-te para mim! Nada parece suficiente. Estás matando-me, homem! Pois diga, então, o que queres!

E, como mais nada se faria necessário, simplesmente respondeu:

― Falo!