domingo, 2 de dezembro de 2007

Noite nublada


Noite, oh, noite! A lua parece beijar arranha-céus e eu aqui, tão distante e tão próximo. Quase poderia tocá-los, não fossem meus olhos meros farsantes: não se pode ter tudo que se vê. E essa falta de nuvens, ela tão somente põe-me a indagar por que há dias em que se acorda assim, em que despertador, banho, barba, dentes, trabalho e uns goles de qualquer bebida com algum álcool, apesar de ações quase que automáticas de um cotidiano ameno, adquirem esse sentido totalmente novo e incompreensível.

Cigarro. Uma tragada e, ah, lá se vão dois meses de abstinência. E nesses dois meses, vai lá saber quantos segundos se passaram desde Larissa e seus beijos, seus dentes que procuravam o meu pescoço tão ferozmente, sua saliva mais quente que meu corpo, aquele desfecho estremecedor. Outra tragada e já me lembro por que fumava antes. Essa tontura nauseante familiar, essa fumaça inebriante e esse cheiro que não sairá dos meus dedos até um belo banho quente. Um banho e curvas perfeitas dela, tão visíveis em meio àquele vapor fumegante que era apenas mais frio que seu toque. Compenetrava-me sem qualquer olhar, fazia desejar-me morto com o mínimo dos atritos que seus lábios divinos causassem. Só mais um pouco de fumaça e um belo saudosismo.

Eis o mínimo que fez toda a diferença em meio a dias corridos e nebulosos. Não, não; o leve toque narcótico apenas relembrou-me de que não são as luzes, não é a rotina, não é o cigarro: um fumo é sempre um fumo e eu não sou eu sem ela a qualquer instante. Essa falta de nuvens, afinal, grita que a rotina trata-se de dias vazios.

Noite, oh, noite! Não se poderia permitir que terminássemos com nossa própria vida!